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sábado, 6 de novembro de 2010

NOSSO LAR – A VISÃO DE FRANCISCO

 

A VISÃO DE FRANCISCO


 

Enquanto Narcisa consolava o doente aflito, fui informado de que me 
chamavam ao aparelho de comunicações urbanas.
Era a senhora Laura que pedia notícias. De fato, esquecera-me de
avisá-la sobre as deliberações de serviço noturno. Pedi desculpas à minha
benfeitora e forneci rápido relatório verbal da nova situação. Através do fio,
a genitora de Lísias parecia exultar, compartilhando meu justo
contentamento.
Ao termo de nossa ligeira conversa, disse, bondosa:
- Muito bem, meu filho! apaixone-se pelo seu trabalho, embriague-se
de serviço útil. Somente assim, atenderemos à nossa edificação eterna.
Lembre, porém, que esta casa também lhe pertence.
Aquelas palavras encheram-me de nobres estímulos.
Regressando ao contacto direto com os enfermos, notei Narcisa a
lutar heroicamente por acalmar um rapaz que revelava singulares distúrbios.
Procurei ajudá-la.
O pobrezinho, de olhos perdidos no espaço, gritava, espantadiço:
- Acuda-me, por amor de Deus! Tenho medo, medo!...
E, olhar esgazeado dos que experimentam profundas sensações de
pavor, acentuava:
- Irmã Narcisa, lá vem "ele"!, o monstro! Sinto os vermes novamente!
"Ele"! "Ele"!. . . Livre-me "dele" irmã! Não quero, não quero!...
- Calma, Francisco - pedia a companheira dos infortunados -, você vai
libertar-se, ganhar muita serenidade e alegria, mas depende do seu esforço.
Faça de conta que a sua mente é uma esponja embebida em vinagre. É
necessário expelir a substância azeda. Ajudá-lo-ei a fazê-lo, mas o trabalho
mais intenso cabe a você mesmo.
O doente mostrava boa-vontade, acalmava-se enquanto ouvia os
conceitos carinhosos, mas volvia à mesma palidez de antes, prorrompendo
em novas exclamações.
- Mas, irmã, repare bem... "ele" não me deixa. Já voltou a atormentarme!
Veja, veja!...
- Estou vendo-o, Francisco - respondia ela, cordata -, mas é
indispensável que você me ajude a expulsá-lo.
- Este fantasma diabólico!... - acrescentava a chorar como criança,
provocando compaixão.
- Confie em Jesus e esqueça o monstro - dizia a irmã dos infelizes,
piedosamente -, vamos ao passe.
O fantasma fugirá de nós.
E aplicou-lhe fluidos salutares e reconfortadores, que Francisco
agradeceu, manifestando imensa alegria no olhar.
- Agora - disse ele, finda a operação magnética -, estou mais tranqüilo.
Narcisa ajeitou-lhe os travesseiros, mandou que uma serva lhe
trouxesse água magnetizada.
Aquela exemplificação da enfermeira edificava-me. O bem, como o
mal, em toda parte estabelece misterioso contágio.
Observando-me o sincero desejo de aprender, Narcisa aproximou-se
mais, mostrando-se disposta a iniciar-me nos sublimes segredos do serviço.
- A quem se refere o doente? - indaguei, impressionado. Está,
porventura, assediado por alguma sombra invisível ao meu olhar?
A velha servidora das Câmaras de Retificação sorriu carinhosamente e
falou:
- Trata-se do seu próprio cadáver.
- Que me diz? - tornei, espantado.
- O pobrezinho era excessivamente apegado ao corpo físico e veio
para a esfera espiritual após um desastre, oriundo de pura imprudência.
Esteve, durante muitos dias, ao lado dos despojos, em pleno sepulcro, sem
se conformar com situação diversa. Queria firmemente levantar o corpo
hirto, tal o império da ilusão em que vivera e, nesse triste esforço, gastou
muito tempo. Amedrontava-se com a idéia de enfrentar o desconhecido e
não conseguia acumular nem mesmo alguns átomos de desapego às
sensações físicas. Não valeram socorros das esferas mais altas, porque
fechava a zona mental a todo pensamento relativo à vida eterna. Por fim, os
vermes fizeram-lhe experimentar tamanhos padecimentos que o pobre se
afastou do túmulo, tomado de horror. Começou, então, a peregrinar nas
zonas inferiores do Umbral; no entanto, os que lhe foram pais na Terra
possuem aqui grandes créditos espirituais e rogaram sua internação
na colônia. Trouxeram-no os Samaritanos, quase à força. Seu estado,
contudo, é ainda tão grave que não poderá ausentar-se, tão cedo, das
Câmaras de Retificação. O amigo, que lhe foi genitor na carne, está
presentemente em arriscada missão, distante de "Nosso Lar".
- E vem visitar o doente? - perguntei.
- Já veio duas vezes e experimentei grande comoção, observando-lhe
o sofrimento, discreto. Tamanha é a perturbação do rapaz, que não
reconheceu o pai generoso e dedicado. Gritava, aflito, mostrando a
demência dolorosa. O genitor, que veio vê-lo em companhia do Ministro
Pádua, do Ministério da Comunicação, pareceu muito superior à condição
humana, enquanto se encontrava com o nobre amigo que obtivera
hospitalidade para o filho infeliz. Demoraram-se bastante, comentando a
situação espiritual dos recém-chegados dos círculos carnais. Mas, quando o
Ministro Pádua se retirou, compelido por circunstâncias de serviço, o pai do
rapaz me pediu lhe perdoasse o gesto humano e ajoelhou-se diante do
enfermo. Tomou-lhe as mãos, ansioso, como se estivesse a transmitir
vigorosos fluidos vitais, e beijou-lhe a face, chorando copiosamente. Não
pude conter as lágrimas e retirei-me, deixando-os a sós Não sei o que se
passou, em seguida, entre ambos; mas notei que Francisco, desde esse dia,
melhorou bastante. A demência total reduziu-se a crises que são, agora,
cada vez mais espaçadas.
- Como tudo isso comove! - exclamei sob forte impressão. Entretanto,
como pode a imagem do cadáver persegui-lo?
- A visão de Francisco - esclareceu a velhinha, atenciosa -, é o
pesadelo de muitos espíritos depois da morte carnal. Apegam-se
demasiadamente ao corpo, não enxergam outra coisa, nem vivem senão dele
e para ele,votando-lhe verdadeiro culto, e, vindo o sopro renovador, não o abandonam.
Repelem quaisquer idéias de espiritualidade e lutam desesperadamente pelo
conservar. Surgem, no entanto, os vermes vorazes, e os expulsam. A essa
altura, horrorizam-se do corpo e adotam nova atitude extremista. A visão do
cadáver, porém, como forte criação mental deles mesmos, atormenta-os no
imo da alma. Sobrevêm perturbações e crises, mais ou menos longas, e
muito sofrem até à eliminação integral do seu fantasma.
Notando-me a comoção, Narcisa acrescentou:
- Graças ao Pai, venho aproveitando bastante, nestes últimos anos de
serviço. Ah! como é profundo o sono espiritual da maioria de nossos irmãos
na carne! Isto, porém, deve preocupar-nos, mas não deve ferir-nos. A
crisálida cola-se à matéria inerte, mas a borboleta alçará
o vôo; a semente é quase imperceptível e, no entanto, o carvalho será um
gigante. A flor morta volve à terra, mas o perfume vive no céu. Todo embrião
de vida parece dormir. Não devemos esquecer estas lições.
E Narcisa calou-se, sem que me atrevesse a interromper-lhe o
silêncio.

(Capitulo 29, livro Nosso Lar, André Luiz, psicografia de Chico Xavier)


 

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